Saindo sem sorrir ou chorar
Por Hiran de Melo
“Seguir
pelo caminho sem luz
Fechar
o coração ao que conduz
Saindo
sem sorrir ou chorar
Não
há como me perdoar
Por
deixar a lua partir
E
o sol não acordar
Barco
sem âncora, mar adentro
A
pedra da segurança sem lugar
Ao
desejo do vento, as velas estão
Não
há como te perdoar
Por
deixar a lua partir
E
o sol não acordar
(Coral)
Não
há cura, nem remédio
Nem
alívio, nem intermédio
O
despertar vai aquém do perdão”
Não há perdão - Hiran de Melo
Há
dores que chegam como tempestades. Outras, porém, chegam como neblina. Não
fazem barulho. Não derrubam árvores. Apenas escondem o horizonte.
Talvez
sejam essas as mais perigosas.
Quando
somos traídos por quem mais confiávamos, abandonados por quem prometeu
permanecer ou esquecidos justamente por aqueles que imaginávamos carregar em
nosso peito para sempre, a primeira reação costuma ser o choro. E o choro é
sagrado. Ele é a linguagem da alma quando as palavras já não bastam.
O
problema começa quando nem ele aparece.
Existe
um lugar silencioso da existência em que a pessoa já não sorri, mas também não
chora. Apenas continua. Caminha. Trabalha. Cumpre horários. Responde mensagens.
Dorme. Acorda. Vive uma rotina impecavelmente organizada enquanto, por dentro,
alguma coisa deixou de pulsar.
É
sobre esse lugar que a canção Não há perdão
parece falar.
"Saindo
sem sorrir ou chorar."
Esse
talvez seja um dos versos mais humanos que já escrevi. Porque ele descreve um
estado que muitos conhecem, embora poucos consigam confessar.
Não
é a revolta.
Não
é o desespero.
É
a suspensão da alma.
Como
um barco que perdeu a âncora e já não sabe se navega porque deseja ou porque
apenas é levado pelo vento.
Curiosamente,
é exatamente nesse ponto que a vida nos apresenta sua pergunta mais difícil.
O que você fará com aquilo que fizeram de você?
As
pessoas inevitavelmente nos decepcionarão. Não porque sejam monstruosas, mas
porque são humanas. Da mesma forma que admiramos personagens cheios de
contradições nos romances e no cinema, também precisamos reconhecer que
carregamos em nós a mesma matéria imperfeita.
Isso
não absolve quem feriu.
Mas
impede que transformemos uma ferida em identidade.
Há
uma diferença profunda entre sentir dor e morar nela.
A
dor é visita.
A
vítima faz dela residência.
Quem
permanece preso ao instante da traição entrega ao traidor um poder que ele
jamais deveria possuir: o de continuar escrevendo os capítulos seguintes da
nossa história.
É
curioso perceber como uma única decepção pode contaminar todos os afetos
futuros.
Traído
uma vez, desconfiamos de todos.
Abandonados
uma vez, evitamos novos encontros.
Desvalorizados
uma vez, deixamos de reconhecer o próprio valor.
Mas
as nuvens nunca foram o céu.
O
que nos acontece não é aquilo que somos.
A
traição não precisa matar a confiança.
O
abandono não precisa matar o amor.
A
ingratidão não precisa matar a amizade.
O
fracasso não precisa matar a vocação.
Porque
a identidade verdadeira não nasce daquilo que recebemos dos outros, mas daquilo
que decidimos preservar dentro de nós.
É
por isso que um escritor não é definido por seu best-seller, nem destruído por
seu pior livro.
Ele
continua sendo escritor enquanto continuar escrevendo.
Da
mesma forma, alguém que ama continua sendo capaz de amar, mesmo depois de ter
encontrado quem não soube acolher esse amor.
Nossa
essência não pode ficar refém das circunstâncias.
Entretanto,
existe ainda uma dimensão mais profunda.
Às
vezes, o perdão que buscamos oferecer ao outro é apenas uma forma elegante de
fugir da pergunta que realmente importa.
Conseguiremos nos reconciliar com a vida?
Porque,
no fundo, a maioria das pessoas não luta contra quem as feriu.
Luta
contra a perda da própria inocência.
Luta
contra a descoberta de que o mundo não corresponde às expectativas construídas
na juventude.
Luta
contra a constatação de que amar não garante reciprocidade.
Talvez
por isso o poema diga que "o despertar vai aquém do perdão".
Há
despertares que não devolvem aquilo que foi perdido.
Eles
apenas nos ensinam a caminhar de outro modo.
Mais
conscientes.
Mais
leves.
Mais
fortes.
E,
paradoxalmente, mais sensíveis.
Não
porque deixamos de sofrer.
Mas
porque aprendemos que sofrer não nos autoriza a endurecer.
No
fim das contas, crescer talvez seja exatamente isso.
Não
sair da vida sorrindo o tempo todo.
Nem
permanecer chorando para sempre.
Mas
atravessar a existência de tal forma que, mesmo quando saímos sem sorrir ou
chorar, ainda levemos conosco aquilo que nenhuma decepção conseguiu arrancar: a capacidade de continuar acreditando na luz, mesmo
depois de caminhar por muito tempo na escuridão.
Porque
a verdadeira vitória nunca foi escapar das tempestades.
Sempre
foi continuar sendo céu, enquanto as nuvens passavam.
Assista:
https://www.youtube.com/watch?v=y47D_BP350w
https://www.instagram.com/reel/DZHo1HMMJcA/?igsh=d2ZmNTI0d2dsYm9u
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