Eu sei

https://youtu.be/aFXDDa-lawA?si=p6TOLFMdbpswOgTY

Eu sei

Por Hiran de Melo

Eu sei —
sei que querias me ofertar o teu inteiro, o teu carinho sem medida, o teu coração sem reservas.
Mas o mundo te exige em partes. Te fragmenta. Te convoca a dividir o tempo, a atenção, o gesto.
E eu sei que o pouco que me dás é, na verdade, imenso.
Porque pouco tens, e mesmo assim, me dás.
E eu, que nem sempre mereço, recebo.
Recebo porque és generosa, porque és mais do que o mundo te permite ser.

Eu sei —
sei que deveria seguir teu exemplo.
Dar mais do que tenho dado.
Dar atenção, dar zelo, dar presença.
Mas há em mim amarras que me prendem.
E há em ti também correntes invisíveis.
Algumas parecem ficção, tão frágeis aos olhos de quem vive na abundância da liberdade.
Mas nós sabemos: o que prende não é sempre visível.
O que limita não é sempre nomeável.

Eu sei —
sei que gostaria de te amar à luz do dia, sem esconderijos.
Mostrar-te ao mundo como minha companheira, minha amiga, minha porção de água-viva.
Mas há em mim um medo antigo, um medo que nasceu comigo.
E vejo nos teus olhos que também tens medo.
Mesmo assim, és mais corajosa do que eu.
Mais inteira no teu ser, mais firme no teu estar.

Eu sei —
sei que há em mim vontades que não compreendo, desejos que não nomeio, medos que não confesso.
E sei que há em ti silêncios que gritam, gestos que falam mais do que qualquer palavra.
O querer nem sempre se traduz no poder.
E o poder nem sempre se realiza no fazer.
Fazer exige coragem.
Exige tempo.
Exige espaço.
E às vezes, exige que sejamos outros — ou que deixemos de ser.

Eu sei —
sei que há dias em que não sou inteiro.
Noites em que me desfaço em lembranças, saudades, esperas.
E sei que há em ti uma força que me sustenta, mesmo quando estás ausente.
O não fazer também é escolha.
Também é gesto.
Também é grito.
E o não dizer — ah, o não dizer — às vezes protege, às vezes fere, às vezes salva.

Eu sei —
sei que somos feitos de tentativas, de tropeços, de recomeços.
Que o amor não é só presença.
É também ausência que pulsa, que ecoa, que insiste.
Há em nós uma dança entre o querer e o poder, entre o ser e o dever, entre o sonho e o chão.
E mesmo sem saber, seguimos.
Cada um com suas cicatrizes, seus abismos, seus lampejos de luz.

Eu sei —
sei que te amo, mesmo quando não sei como.
Sei que me amas, mesmo quando não podes.
E sei que, apesar de tudo, há em nós um pacto silencioso: o de continuar.
Mesmo que seja só com o olhar, com o pensamento, com a memória.
Porque o ser ama, mesmo quando o mundo não permite.
Porque o ser é, mesmo quando o tempo o desvia.
Porque o ser, no fundo, é sempre espera.

Composição - Hiran de Melo

Intérpretes: Bielzin

Arranjos e Gravação: Studio Washington Boy

Faixa 03 do Álbum Caminhando nas nuvens – 2025/2026

https://youtu.be/aFXDDa-lawA?si=p6TOLFMdbpswOgTY

 

Depoimento do Poeta: Eu sei

O Avesso do Saber: Reflexões sobre a Gênese de "Eu Sei"

Escrever a letra de "Eu Sei" não foi um exercício de métrica, mas um parto de silêncios. Quando me sentei para dar forma a esses versos, não buscava a precisão de um dicionário, mas a textura de um gesto íntimo. Eu queria tocar aquilo que escapa, nomear o indizível e, acima de tudo, reconhecer que amar é uma geometria de fragmentos.

O Sujeito em Partes e a Oferta do Inteiro

Muitas vezes, somos levados a acreditar que o amor exige totalidade. Mas a verdade — e o poema confessa isso — é que o mundo nos exige em partes. Como bem pontuado nas entrelinhas de Jacques Lacan, que sussurra por trás de cada estrofe, somos sujeitos divididos.

Ao escrever "Eu sei que o mundo te exige em partes", eu estava falando sobre a generosidade de quem oferece o que tem, mesmo sabendo que a inteireza é uma ilusão. O amor não é a união de dois seres completos, mas o encontro de duas faltas que decidem caminhar juntas.

A Repetição como Confissão

A insistência no "Eu sei" que pontua a canção não é um recurso estilístico vazio; é uma âncora. É a voz de alguém que tenta se convencer do que sente enquanto lida com o que permanece incerto. Existe uma dualidade latente entre o saber racional e o pulsar do desejo que não se explica.

As "amarras invisíveis" e as "correntes" que menciono na letra são a representação do que a psicanálise chama de Real: aquilo que nos molda e nos limita, mas que não conseguimos simbolizar plenamente. É aquele medo antigo, que nasce conosco, e que define nossos recuos e nossos silêncios.

A Linguagem do Não-Dito

No processo de composição, percebi que o silêncio precisava ter voz. Há momentos em que o silêncio grita mais alto que qualquer palavra. No poema, o amor se manifesta em:

  • Gestos mínimos: Um carinho breve que sustenta a ausência.
  • Presenças ausentes: Onde o laço se mantém justamente pelo que não é dito.
  • A Espera: O entendimento de que o "ser", no fundo, é uma estrutura de espera.

O Pacto da Incompletude

No fim das contas, "Eu Sei" é um manifesto sobre a continuidade. É sobre o desejo do Outro e sobre como lidamos com o vazio que ele deixa. Lacan nos ensina que desejar é sinal de que algo nos falta, e o poema aceita essa falta sem desespero.

"Não busco garantias nem plenitude; busco o reconhecimento da nossa humanidade compartilhada."

Escrevi esses versos para mostrar que o amor é um pacto silencioso que sobrevive ao tempo e às distâncias. É uma dança constante entre o possível e o impossível, entre o que somos e o que ainda tentamos ser. É, acima de tudo, a coragem de continuar — mesmo quando não sabemos como.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog