Não posso partir

Por Hiran de Melo

 

Para onde eu vou?

Levo minha dor

Só agonia.

 

Para onde eu vou?

Não há ardor

Nem dom de iludir

 

Para onde eu vou?

Não há amor

Nem alegria.

 

Daí não querer sair

Da casca do ovo

Ser novo

 

Daí não ouvir

Tu voz a pedir

Venha para mim.

 

Estou tolo

Bobo, morto

Não há como ouvir.

 

O som das estrelas

A canção da cachoeira

Tudo é asneira.

 

Composição – Hiran de Melo

Intérprete - Boy

Arranjos e Gravação: Studio Washington Boy

Faixa 03 do Álbum Lições do Cotidiano – 2024/2025

Assista o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=wsUvSwLPmjI

Faixa 04 – Instrumental

 

O Silêncio da Travessia

Por Hiran de Melo

O poema se ergue como um retrato da imobilidade da alma, um canto que não avança, mas se repete em círculos de dor. A pergunta insistente — “Para onde eu vou?” — não busca direção geográfica, mas revela a ausência de horizonte existencial. É o eco de um ser que perdeu o chão simbólico e não encontra mais o espaço comum onde a vida se sustenta.

A recusa do nascimento

O símbolo da “casca do ovo” concentra a tensão central: a possibilidade de nascer para o mundo é rejeitada. O eu lírico prefere o abrigo estéril ao risco da exposição. O nascimento, que deveria ser promessa de novidade, é transformado em clausura. A vida se detém, e o tempo deixa de fluir.

O silêncio da alteridade

O chamado do outro — “Venha para mim” — é ignorado. Não por maldade, mas por incapacidade de escutar. Essa surdez é também uma morte ética: quando não há resposta ao apelo do outro, rompe-se o vínculo que sustenta a existência compartilhada. O sujeito se fecha em sua dor, tornando-se impermeável ao encontro.

O niilismo absoluto

Na estrofe final, até o sublime da natureza — “o som das estrelas”, “a canção da cachoeira” — é reduzido a “asneira”. O mundo perde sua capacidade de inspirar, e o sentido se dissolve. É o ápice do niilismo: quando nada mais possui valor, nem o cosmos, nem a poesia, nem a beleza.

O paradoxo da palavra

Apesar da recusa em partir, o próprio ato de transformar dor em poesia já é um gesto de resistência. A palavra abre uma fresta no silêncio, permitindo que o eu lírico, mesmo paralisado, se comunique. O poema é, ao mesmo tempo, confissão de morte e semente de renascimento.

Síntese

O poema revela um ser suspenso entre a potência de existir e a estagnação que paralisa. Entre o desejo de nascer e o medo de se expor, constrói-se uma narrativa de recusa: não há ardor, não há amor, não há alegria. O mundo se desfaz em silêncio e o sujeito se fecha em sua própria dor.

Ainda assim, há uma contradição fecunda. O ato de transformar essa dor em palavra já é um gesto de resistência. A poesia, mesmo impregnada de niilismo, abre uma fresta no silêncio absoluto. Quem diz “não posso partir” já está, de algum modo, partindo — não no espaço físico, mas no espaço simbólico da linguagem.

Assim, o poema anuncia o colapso, mas também sugere a possibilidade de encontro. A palavra se torna ponte, mesmo quando nasce da impossibilidade. O silêncio é quebrado, e a poesia se afirma como o lugar onde a recusa de viver se converte em abertura para o outro.

Comentários

  1. Está poesia atravessa meu ser e me faz entender.
    Entender que o grito as vezes não ouvido não foi pela surdez,mas sim pela falta do poder efetivar.
    Que toda solidão, se transforme em escritos tão lindocomo este.

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  2. Amada amiga e poetiza Gelda. Com emoção escuto o seu grito. Você sempre será uma parceira de poesia e composição musical.

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