Quando o Olhar e o Sorriso
Desenham o Encontro
Por Hiran de Melo
Há
encontros que chegam fazendo barulho. São anunciados por palavras apressadas,
fotografias cuidadosamente montadas, mensagens que atravessam o dia como quem
teme o silêncio. Vivemos cercados de vozes, mas raramente alcançados por
presenças. Nunca foi tão fácil encontrar alguém; talvez nunca tenha sido tão
difícil verdadeiramente encontrar um ser humano.
Há
uma diferença silenciosa entre mostrar um sorriso e oferecer um sorriso.
O
primeiro pode ser apenas uma superfície bem iluminada.
O
segundo é uma porta que se abre por dentro.
É
curioso como a alma reconhece essa diferença antes mesmo que a razão consiga
explicá-la.
Talvez
porque exista uma linguagem muito mais antiga que todas as palavras.
Antes
de aprendermos a dizer "eu", já buscávamos um olhar que dissesse: você
está seguro. Antes de compreendermos o amor, já descansávamos quando alguém
sorria para nós sem nos pedir outra coisa além da nossa presença.
O
olhar foi nossa primeira morada.
O
sorriso, nosso primeiro abrigo.
Talvez
seja por isso que, quando amamos, desejamos aquilo que parece impossível de
dizer. Não queremos apenas a companhia do outro. Queremos que ele ilumine
nossos dias "até quando a noite cai". Queremos sua voz misturada ao
silêncio da casa, seu riso dissolvendo nossos medos, sua presença fazendo do
tempo um lugar habitável.
Mas
o amor amadurece quando compreendemos que esse "quero você todo pra
mim" não é um desejo de posse.
É
um desejo de inteireza.
Não
significa prender.
Significa
desejar que, quando estivermos juntos, ninguém precise partir de si mesmo para
permanecer ao lado do outro.
Talvez
seja por isso que o poeta sonhe com o impossível.
"Quero
o sol iluminando a noite."
"Quero
a lua escurecendo o dia."
As
imagens parecem contrariar a lógica, mas obedecem ao coração. Porque amar
sempre altera a geometria do mundo. A noite deixa de ser apenas ausência de luz
quando alguém chega com um sorriso. O dia perde sua claridade quando esse
alguém parte. O universo continua o mesmo; quem mudou foi o modo de habitá-lo.
É
isso que o amor faz.
Não
transforma o céu.
Transforma
quem o contempla.
Os
olhos quase nunca conseguem mentir por muito tempo. Eles carregam a memória das
noites insones, das alegrias escondidas e dos medos cuidadosamente organizados
para que ninguém perceba. Há olhos que sustentam tempestades inteiras. Outros
conservam o brilho tranquilo de quem aprendeu que a esperança também sabe
caminhar devagar.
Quando
dois olhares se encontram de verdade, algo extraordinário acontece.
Não
porque descubram pessoas perfeitas.
Mas
porque finalmente reconhecem alguém que também conhece o peso de ser
imperfeito.
Talvez
seja esse o segredo de toda aproximação humana.
Não
somos atraídos pelas certezas do outro.
Somos
convidados pelas suas rachaduras.
A
beleza nunca esteve na ausência das cicatrizes.
Ela
nasce quando alguém consegue olhar para elas sem diminuir quem as carrega.
Penso,
às vezes, que somos como janelas abertas em casas diferentes.
Cada
uma construída em tempos distintos.
Cada
uma marcada por suas próprias chuvas.
Entretanto,
quando o entardecer chega, todas se voltam para o mesmo horizonte.
Há
pessoas que jamais apertaram nossas mãos, mas parecem conhecer o desenho da
nossa alma. Um poema, uma canção, uma ideia compartilhada, e de repente
sentimos a estranha impressão de que alguém caminhou pelas mesmas paisagens
interiores que imaginávamos exclusivamente nossas.
É
uma das formas mais discretas de comunhão.
Descobrimos
que nunca estivemos completamente sozinhos.
Talvez
seja por isso que uma maneira tão curiosa de conhecer o sorriso de alguém
aconteça justamente quando encontramos essa pessoa através daquilo que ela
pensa. Antes mesmo de vermos seu rosto, encontramos sua maneira de contemplar a
vida. Há pensamentos que sorriem antes dos lábios. Há palavras que abraçam
antes dos braços. Conhecemos primeiro a paisagem interior; o rosto apenas
confirma aquilo que a alma já havia intuído.
E
então compreendemos que o abraço nunca começa com os braços.
Começa
com um olhar.
O
beijo nunca começa com os lábios.
Começa
com a confiança.
Toda
grande dança começa muito antes da música.
Começa
quando duas liberdades decidem caminhar no mesmo compasso.
Talvez
seja isso que a poesia tenta dizer quando fala do desejo de cantar, sorrir,
dançar e permanecer "nos braços desse cuidado". O amor verdadeiro não
pede um palco. Pede um ritmo comum. Não exige perfeição. Apenas a delicadeza de
dois corações que aprendem a respirar quase na mesma cadência.
Chega
um momento da vida em que nossas necessidades mudam de nome.
Já
não procuramos quem nos complete.
Procuramos
quem ressoe.
Já
não desejamos alguém que elimine nossos vazios.
Desejamos
alguém diante de quem nossos silêncios possam descansar.
É
então que a vulnerabilidade deixa de parecer fraqueza.
Transforma-se
em ponte.
As
cicatrizes deixam de ser vergonha.
Transformam-se
em mapas.
O
silêncio deixa de ser distância.
Transforma-se
em companhia.
E
o sorriso deixa de ser um disfarce.
Passa
a dizer, sem pronunciar palavra alguma:
"Você
pode permanecer. Aqui não precisa fingir quem é."
No
fim, talvez a vida seja infinitamente mais simples do que imaginamos.
Ela
não nos pede multidões.
Pede
encontros.
Não
exige perfeições.
Pede
verdade.
E,
de tempos em tempos, oferece o raro privilégio de cruzarmos com alguém diante
de quem o mundo parece respirar mais devagar.
Alguém
cujo olhar não nos atravessa, mas nos alcança.
Alguém
cujo sorriso não ilumina apenas o rosto, mas também aquilo que permanecia
escuro dentro de nós.
Quando
isso acontece, compreendemos que o afeto possui uma geometria própria.
Linhas
que jamais se tocaram começam, inexplicavelmente, a convergir.
Distâncias
deixam de ser medidas em quilômetros.
Passam
a ser vencidas pela presença.
Mesmo
que, um dia, o mundo gire ao contrário.
Mesmo
que os calendários insistam em separar o que o coração aproximou.
Mesmo
que o tempo faça seu paciente trabalho de transformação.
Continuaremos
desejando encontrar quem nos fez descobrir que a noite também pode ser
iluminada pelo sol, que o dia pode repousar sob a lua e que um sorriso é capaz
de alterar a arquitetura inteira da existência.
Porque,
no fundo, não queremos possuir ninguém.
Queremos
apenas aquele raro encontro em que um olhar encontra outro olhar, um horizonte
encontra outro horizonte, e a vida inteira, por um instante, transforma-se em
poesia.
ASSISTA: https://www.youtube.com/watch?v=g6a57NJ8IIw
Comentários
Postar um comentário