Preciso lhe falar do amor
Por Hiran de Melo
Há
palavras que envelhecem pelo excesso de uso. Outras permanecem eternas,
justamente porque nunca conseguimos esgotar o seu significado. Amor pertence à
segunda categoria.
Vivemos
um tempo curioso. Nunca falamos tanto de conexões e, paradoxalmente, nunca
experimentamos tanta solidão. Multiplicamos os meios de comunicação, mas
diminuímos a capacidade de comunhão. Compartilhamos imagens, opiniões,
indignações, sucessos, fracassos... mas raramente compartilhamos aquilo que
verdadeiramente nos constitui.
Talvez
por isso eu preciso lhe falar do amor.
Não
porque você desconheça essa palavra, mas porque ela corre o risco de tornar-se
apenas mais uma palavra entre tantas outras.
O
amor não é um sentimento que nos visita ocasionalmente. Ele é a atmosfera onde
a vida encontra sentido. É o invisível que sustenta o visível. É aquilo que
respiramos antes mesmo de aprender a falar.
Quando
uma criança nasce, ela não pergunta se será amada. Ela simplesmente precisa do
amor para viver. O primeiro alimento da existência não é o leite. É o
acolhimento. Antes de compreender qualquer idioma, o ser humano compreende um
abraço.
Talvez
seja por isso que as Escrituras não afirmam apenas que Deus ama. Elas ousam
dizer algo infinitamente maior: Deus é amor.
A
diferença é imensa.
Se
Deus apenas amasse, o amor seria uma de suas qualidades. Mas sendo o próprio
Amor, toda criação nasce dessa fonte inesgotável. O universo não é fruto do
acaso frio. É consequência de um gesto amoroso.
Somos
feitos da mesma matéria das estrelas, dizem os físicos.
Somos
feitos do amor, dizem os místicos.
Talvez
ambos estejam falando da mesma realidade sob linguagens diferentes.
O
carbono que forma nosso corpo nasceu no coração de estrelas que explodiram
bilhões de anos atrás. O amor que sustenta nossa existência nasceu no coração
do próprio Deus antes que houvesse tempo.
Somos
poeira iluminada.
Somos
barro respirando eternidade.
Por
isso falar de amor não é fugir da realidade. É mergulhar na realidade mais
profunda.
Alguns
perguntarão:
—
Como falar de amor quando assistimos às guerras?
Como
falar de amor diante das crianças famintas, dos refugiados, da violência
doméstica, das injustiças, das lágrimas silenciosas que escorrem todos os dias?
A
pergunta parece definitiva.
Mas
talvez ela esteja invertida.
A
verdadeira pergunta seja:
Como deixar de falar de amor justamente quando o mundo mais
necessita dele?
As
guerras não começaram porque havia amor demais.
As
injustiças não nasceram do excesso de compaixão.
O
preconceito nunca foi filho da ternura.
Toda
violência é, em sua raiz mais profunda, ausência de amor.
Quando
o outro deixa de ser um rosto e passa a ser apenas um número, uma ameaça, um
inimigo, um objeto ou uma estatística, o amor já abandonou aquela paisagem.
É
por isso que o amor não é ingenuidade.
É
resistência.
É
coragem.
É
revolução silenciosa.
Quem
ama recusa transformar pessoas em instrumentos.
Quem
ama não pergunta primeiro de onde o outro veio. Pergunta se ele precisa de
abrigo.
Quem
ama não elimina diferenças. Aprende a habitá-las.
O
amor não uniformiza.
Humaniza.
Talvez
seja essa a razão de tantas pessoas terem medo do amor verdadeiro.
Porque
amar exige uma renúncia difícil: abandonar a ilusão de que somos o centro do
universo.
O
amor desloca o eixo.
Ensina
que existe um "nós" maior do que qualquer "eu".
Por
isso nenhuma experiência amorosa autêntica termina onde começa o interesse
próprio.
Ela
sempre transborda.
Sempre
cria espaço.
Sempre
amplia horizontes.
Talvez
seja por isso que a alma humana nunca se satisfaça completamente com o consumo,
com o sucesso, com o reconhecimento ou com a acumulação.
Há
um vazio que somente o amor consegue preencher.
Não
porque ele responda todas as perguntas.
Mas
porque transforma quem as faz.
No
fim, percebo que não preciso convencer ninguém da importância do amor.
Cada
pessoa que lê estas palavras já experimentou, em algum momento da vida, um
gesto que a salvou.
Um
olhar.
Uma
mão estendida.
Um
perdão inesperado.
Uma
presença silenciosa.
Uma
palavra dita na hora certa.
O
amor quase nunca faz barulho.
Mas
muda destinos.
E
talvez seja exatamente isso que nossa época esteja esquecendo.
O
mundo não será reconstruído apenas por tecnologias mais sofisticadas, economias
mais fortes ou inteligências mais avançadas.
Será
reconstruído por homens e mulheres que ainda conservem a capacidade de enxergar
o outro como irmão.
No
final das contas, falar de amor não é repetir um discurso romântico.
É
recordar nossa origem.
É
proteger nossa humanidade.
É
manter acesa a única luz capaz de atravessar todas as noites.
Por
isso, permita-me insistir.
Preciso lhe falar do amor.
Não
porque ele esteja ausente.
Mas
porque ele já habita em você.
E
toda vida encontra sua verdadeira plenitude quando aquilo que habita o coração
finalmente encontra voz.
ASSISTA

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