O Amor como Pacto da Incompletude

Por Hiran de Melo

Muitos acreditam que o amor chega para encerrar todas as ausências. Como se amar fosse finalmente alcançar uma margem segura depois de uma travessia interminável. Como se o encontro entre duas pessoas pudesse dissolver os vazios que cada uma transporta desde muito antes de descobrir que o coração também possui uma linguagem.

Talvez seja justamente aí que nasça uma das maiores ilusões da existência.

O amor não elimina a incompletude. Ele a revela.

Não nos apaixonamos porque somos inteiros. Aproximamo-nos porque reconhecemos, ainda que silenciosamente, a humanidade imperfeita do outro. É como se duas fragilidades, ao se olharem, compreendessem que não precisam esconder suas rachaduras para continuarem belas.

Há uma delicadeza profunda em descobrir que ninguém pode oferecer tudo. O tempo não permite. A vida não permite. As responsabilidades nos dividem, os medos nos fragmentam, a história nos deixa marcas que nenhuma vontade consegue apagar completamente.

Vivemos repartidos.

Somos filhos, pais, mães, profissionais, amigos, cuidadores, sobreviventes de antigas tempestades. Há dias em que mal conseguimos reunir a nós mesmos, quanto mais oferecer nossa inteireza a alguém.

Ainda assim, o amor acontece.

Não porque entregamos tudo, mas porque oferecemos aquilo que conseguimos salvar do caos.

Talvez seja esse o gesto mais sagrado do amor: oferecer presença quando a vida nos obriga à dispersão.

Há pessoas que imaginam que amar seja possuir liberdade absoluta para dizer, mostrar, tocar, permanecer. Mas existem amores atravessados por circunstâncias que ninguém vê. Correntes invisíveis sustentam muitos silêncios. Há histórias que não cabem nas explicações fáceis. Existem prisões que não possuem grades, apenas responsabilidades, culpas, promessas antigas e medos que aprenderam a morar dentro da alma.

Nem toda ausência é desamor.

Às vezes, a ausência é apenas a forma dolorosa que a impossibilidade encontrou para existir.

Por isso, o amor maduro aprende uma linguagem diferente. Ele deixa de contar apenas as palavras pronunciadas e começa a escutar aquilo que o silêncio tenta proteger.

O silêncio, afinal, nunca é vazio.

Há silêncios que ferem.

Há silêncios que aguardam.

Há silêncios que pedem socorro.

E há aqueles que amam profundamente, justamente porque sabem que qualquer palavra seria pequena demais para conter o que sentem.

Vivemos acreditando que a prova do amor está naquilo que conseguimos fazer. Entretanto, muitas vezes, o amor se revela justamente naquilo que não foi possível realizar.

O abraço que não aconteceu continua habitando a memória.

A ligação que nunca foi feita permanece ecoando dentro do peito.

A viagem adiada continua sendo percorrida pela imaginação.

O beijo interrompido permanece acontecendo em algum lugar da eternidade.

O não vivido também constrói quem somos.

Existe uma estranha grandeza nos afetos inacabados.

Eles nos ensinam que o amor não depende exclusivamente da realização. Há sentimentos que permanecem vivos exatamente porque não se esgotaram na posse. Continuam respirando como uma chama discreta, iluminando sem consumir completamente aquilo que tocam.

Talvez amar seja isso: aceitar que o outro jamais será tudo aquilo que desejamos, porque também nós jamais conseguiremos ser tudo aquilo que gostaríamos de oferecer.

O encontro verdadeiro acontece quando desistimos de exigir completude.

Não porque renunciamos aos sonhos, mas porque compreendemos que a beleza da existência está justamente naquilo que permanece em construção.

Somos obras abertas.

Inacabadas.

Cada gesto acrescenta uma linha.

Cada despedida redesenha um contorno.

Cada reencontro modifica aquilo que pensávamos conhecer.

O amor, então, deixa de ser um contrato de perfeição para tornar-se um pacto de permanência.

Não prometemos nunca falhar.

Prometemos continuar.

Continuar aprendendo a olhar.

Continuar reaprendendo a escutar.

Continuar descobrindo novas formas de permanecer presentes, mesmo quando a distância se impõe.

Porque o contrário da incompletude não é a perfeição.

É a desistência.

Enquanto ainda houver um olhar capaz de reconhecer o outro, uma memória capaz de aquecer a ausência, um gesto pequeno disposto a atravessar o cotidiano, o amor continuará existindo.

Não inteiro.

Nunca inteiro.

Mas suficientemente verdadeiro para lembrar que Deus talvez não tenha criado seres completos, e sim corações capazes de caminhar juntos justamente porque lhes falta alguma coisa.

E talvez seja essa falta — longe de ser uma condenação — a mais profunda possibilidade de comunhão.

Afinal, o amor não nasce quando duas metades se encontram.

O amor nasce quando duas incompletudes deixam de pedir perfeição uma à outra e escolhem, humildemente, continuar caminhando lado a lado, fazendo da própria imperfeição uma forma de eternidade.

Assista: https://youtu.be/aFXDDa-lawA?si=p6TOLFMdbpswOgTY


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog