Não
Posso Partir... Porque Ainda Não Nasci
Por
Hiran de Melo
"Daí
não querer sair
Da casca do ovo
Ser novo." Hiran de Melo
Há
uma espécie de sofrimento que não nasce da perda, mas do crescimento.
É
uma dor estranha. Não sangra por fora, mas aperta por dentro. Não vem porque a
vida acabou, mas porque a vida ficou pequena demais para aquilo que estamos nos
tornando.
Talvez
seja por isso que, às vezes, repetimos silenciosamente:
"Para onde eu vou?"
Não
é uma pergunta geográfica. É existencial.
É
a pergunta de quem percebe que permanecer já não é possível, mas partir ainda
parece impossível.
Entre
um lugar e outro existe uma fronteira invisível chamada crise.
O curioso é que quase sempre interpretamos a crise
como sinônimo de fracasso.
Quando
tudo aperta, acreditamos que estamos sendo destruídos.
Mas
a natureza conta outra história.
O
passarinho, quando sente o ovo tornar-se pequeno, não está morrendo.
Está
nascendo.
Para
quem observa de fora, parece violência.
A
casca se rompe.
Tudo
aquilo que antes protegia agora se quebra.
O
abrigo desaparece.
Mas
somente porque chegou o tempo do voo.
A
destruição da casca é, na verdade, a construção das asas.
Talvez seja exatamente isso que acontece conosco.
Há
momentos em que Deus — ou a própria vida — não retira nossas certezas.
Elas
simplesmente deixam de caber.
Aquilo
que durante anos nos protegeu passa, lentamente, a nos aprisionar.
As
antigas respostas já não respondem.
Os
velhos hábitos já não sustentam.
Os
mesmos ambientes já não alimentam.
Não
porque tenham ficado ruins.
Mas
porque nós crescemos.
Ou,
quem sabe, porque fomos chamados a crescer.
O drama é que a casca também oferece segurança.
Dentro
dela existe calor.
Existe
previsibilidade.
Existe
o conhecido.
Fora
dela há vento.
Há
frio.
Há
risco.
Há
liberdade.
E
nem sempre estamos prontos para trocar a segurança pelo horizonte.
Por
isso no poema confesso:
"Daí
não querer sair..."
Não
é covardia.
É
humanidade.
Todos
nós nos apaixonamos por algumas prisões.
Chamamos
de estabilidade aquilo que, muitas vezes, já se transformou em estagnação.
Existe um momento em que a alma perde a capacidade
de ouvir.
O
poema descreve esse estado com delicadeza dolorosa.
"Estou tolo
Bobo, morto
Não há como ouvir."
Quando
o sofrimento ocupa todos os espaços, até a beleza perde sua voz.
As
estrelas continuam cantando.
A
cachoeira continua compondo sua música.
O
vento continua anunciando manhãs.
Mas
quem sofre profundamente já não consegue escutar.
Não
porque o mundo tenha silenciado.
Mas
porque a dor produz um ruído maior.
É
como se a alma inteira estivesse ocupada tentando sobreviver.
Entretanto,
talvez exista uma revelação escondida justamente
nesse silêncio.
Quando
não conseguimos ouvir o mundo, talvez seja porque chegou a hora de ouvir aquilo
que sempre evitamos escutar dentro de nós.
Toda
crise interrompe o barulho das distrações.
Ela
nos devolve para nós mesmos.
É
desconfortável.
Mas
profundamente necessário.
A
vida, então, parece sussurrar:
"Você
já não cabe mais aqui."
Não
é uma condenação.
É
um convite.
Existe
uma diferença enorme entre fugir e nascer.
Quem
foge apenas muda de lugar.
Quem
nasce muda de natureza.
O
passarinho não abandona o ovo porque o odeia.
Ele
sai porque já não consegue viver dentro dele.
Essa
é uma das mais belas lições da existência.
Não
rompemos com o passado porque ele foi inútil.
Rompemos
porque ele cumpriu sua missão.
A
casca nunca foi o destino.
Sempre
foi preparação.
Talvez
seja esse o sentido oculto daquela pergunta
repetida:
"Para
onde eu vou?"
A
resposta talvez seja surpreendentemente simples.
Você
não vai para lugar algum.
Você
vai para si mesmo.
Toda
verdadeira travessia é interior.
Os
quilômetros importam menos do que as metamorfoses.
O
horizonte mais distante continua sendo aquele que existe dentro de nós.
Há
um detalhe extraordinário no nascimento do pássaro.
Ninguém
pode quebrar o ovo por ele.
Se
alguém o fizer, provavelmente impedirá que suas asas adquiram a força
necessária para voar.
A
resistência da casca fortalece a vida que emerge.
Assim
também acontece conosco.
Há
dores que não são castigos.
São
musculação da alma.
São
exercícios invisíveis preparando-nos para uma liberdade que ainda não sabemos
habitar.
Aquilo
que hoje parece insuportável talvez esteja formando exatamente a pessoa que
amanhã agradecerá por não ter desistido.
Talvez,
então, o verso final do poema esconda uma esperança
maior do que aparenta.
"Não
posso partir..."
Talvez
ainda não.
Mas
o ovo já estala.
A
casca já apresenta pequenas rachaduras.
O
aperto já não é sinal de morte.
É
anúncio de nascimento.
E,
quando finalmente compreendermos que algumas perdas são apenas o preço
inevitável do voo, descobriremos que Deus nunca desejou destruir nossa
história.
Queria
apenas impedir que confundíssemos abrigo com destino.
Porque
a vida nunca nos chamou para morar eternamente dentro da casca.
Chamou-nos
para habitar o céu.
E
todo céu começa exatamente no instante em que encontramos coragem para romper
aquilo que um dia nos protegeu, mas que agora já não consegue conter a
imensidão que fomos criados para ser.
Assista: https://www.youtube.com/watch?v=wsUvSwLPmjI
ANEXO
Não posso partir
Por Hiran de Melo
Para onde eu
vou?
Levo minha dor
Só agonia.
Para onde eu
vou?
Não há ardor
Nem dom de
iludir
Para onde eu
vou?
Não há amor
Nem alegria.
Daí não querer
sair
Da casca do ovo
Ser novo
Daí não ouvir
Tu voz a pedir
Venha para mim.
Estou tolo
Bobo, morto
Não há como
ouvir.
O som das
estrelas
A canção da
cachoeira
Tudo é asneira.
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