Escute o silêncio da alma e floresça
Quando a dor deixa de ser silêncio e se transforma em caminho
Por Hiran de Melo
Há dores que chegam como um golpe.
Outras, mais discretas, permanecem escondidas nas palavras que ouvimos, nos
olhares que nos diminuem, nas ausências que nos atravessam. As primeiras deixam
hematomas; as segundas moldam a alma. Talvez estas últimas sejam as mais
difíceis de reconhecer, porque não aparecem nos exames médicos, mas alteram
profundamente a maneira como passamos a enxergar a nós mesmos.
Há uma violência que bate com as
mãos. Outra, mais sofisticada, bate com a linguagem. Há quem destrua o corpo;
há quem destrua lentamente a imagem que fazemos de nós mesmos. Ambas deixam
cicatrizes. Ambas procuram convencer a vítima de que ela vale menos do que
realmente vale.
Foi dessa travessia que nasceu o
poema "Não Me Bata Mais", escrito por Hiran de Melo e Hian de
Melo. Embora sua aparência seja simples, sua essência alcança profundezas que
pertencem ao mistério da existência humana. Não é apenas um poema sobre
violência. É um poema sobre identidade. É um poema sobre aquilo que acontece
quando alguém tenta apagar a luz do outro.
Entretanto, existe uma pergunta ainda
mais profunda do que o próprio sofrimento: o que permanece em nós depois que a violência passa?
Talvez seja exatamente aqui que a
filosofia, a espiritualidade e a poesia se encontrem.
Nietzsche escreveu: "Torna-te
quem tu és." Não como um convite ao egoísmo, mas como um chamado para
retirar todas as máscaras impostas pela vida. Carl Gustav Jung diria algo
semelhante ao afirmar que o processo de individuação consiste em integrar
nossas sombras para que possamos finalmente nascer para nós mesmos.
Mas como alguém pode tornar-se quem é
quando passou anos ouvindo que não valia nada?
A violência possui justamente esse
objetivo: separar a pessoa de sua própria essência.
O agressor não deseja apenas
controlar comportamentos. Procura controlar significados. Quer definir quem o
outro é. Escolhe quais defeitos enxergar. Amplifica culpas. Alimenta vergonhas.
Constrói uma espécie de "luz negra", expressão extraordinária do
poema, que ilumina apenas aquilo que confirma sua própria narrativa.
Essa luz não revela.
Seleciona.
Não esclarece.
Manipula.
Por isso o poema afirma:
"Tanta cegueira
Era luz negra
Que destacava
O que ela queria..."
Não existe imagem mais precisa para
descrever certos relacionamentos abusivos.
Quem vive sob essa luz passa a
acreditar que realmente é aquilo que o agressor diz.
A crítica torna-se identidade.
A humilhação transforma-se em
espelho.
A culpa substitui a liberdade.
É nesse instante que as palavras
deixam de comunicar e passam a ferir.
As "facas dentadas" não
cortam apenas a autoestima. Elas perfuram a memória. Instalam-se no
inconsciente e continuam repetindo sua sentença muito tempo depois de o
agressor ter ido embora.
Talvez por isso exista uma
advertência que merece ser repetida como quem acende uma vela diante da noite:
Tenhamos muito cuidado com as
palavras. Quando elas provocam fúrias, estão tocando regiões da alma que nem
sempre compreendemos.
Cada palavra encontra uma história.
Cada história guarda feridas.
Cada ferida possui uma memória.
Não reagimos apenas ao que ouvimos.
Reagimos também ao que aquela palavra
desperta dentro de nós.
É por isso que o silêncio pode
gritar.
É por isso que uma frase pode
destruir uma vida.
É por isso que um abraço pode
reconstruí-la.
No entanto, a grande surpresa do
poema não está na denúncia.
Está na permanência do canto.
Logo no início, lemos:
"Que mesmo cantando
Meu corpo doía..."
O canto permanece.
A dor não conseguiu destruir
completamente a capacidade de cantar.
E talvez seja exatamente aí que
resida a esperança.
Porque enquanto alguém ainda consegue
cantar, escrever, rezar, amar ou simplesmente pedir socorro, existe dentro
dessa pessoa algo que a violência não conseguiu matar.
O refrão deixa isso evidente:
"Não
me bata mais."
Muitos o interpretarão apenas como um
pedido.
Talvez seja mais.
Talvez seja o primeiro ato de
liberdade.
Quem pede o fim da violência já
começou a romper o seu domínio.
Quem consegue nomear o sofrimento já
não está completamente dominado por ele.
A linguagem torna-se libertação.
A poesia converte-se em travessia.
A palavra deixa de ser arma para
voltar a ser casa.
É curioso perceber que quase todas as
tradições espirituais afirmam que o ser humano precisa nascer mais de uma vez.
Existe o nascimento biológico.
Existe o nascimento psicológico.
Existe o nascimento espiritual.
Existe, finalmente, aquele nascimento
silencioso em que alguém decide deixar de viver segundo a definição que os
outros fizeram dele.
Esse talvez seja o nascimento mais
difícil.
Porque exige abandonar medos antigos.
Perdoar sem esquecer.
Curar sem negar as cicatrizes.
Olhar para dentro sem permitir que a
dor continue governando a existência.
"Sinta,
pense e torne-se o que você é."
Não se trata de ignorar o sofrimento.
Ao contrário.
É justamente sentindo profundamente a
dor que começamos a compreendê-la.
Pensando sobre ela deixamos de ser
seus prisioneiros.
E somente então podemos descobrir que
nossa identidade nunca esteve nas agressões que recebemos, mas na dignidade que
permanece viva apesar delas.
A vítima jamais é a violência que
sofreu.
Ela é infinitamente maior.
Talvez essa seja a maior mentira da
violência: convencer alguém de que seu valor depende daquilo que lhe fizeram.
Não depende.
Nunca dependeu.
A essência humana permanece inteira,
mesmo quando a existência parece fragmentada.
Por isso, a verdadeira cura não
consiste em apagar o passado.
Consiste em retirar do passado o
direito de decidir quem seremos.
Toda iniciação espiritual conduz
exatamente a esse ponto.
Toda filosofia autêntica também.
Toda poesia verdadeira igualmente.
Não nos tornam pessoas diferentes.
Apenas removem aquilo que escondia
quem sempre fomos.
Então compreendemos que o maior
pedido do poema não é apenas:
"Não
me bata mais."
É outro, ainda mais profundo.
Não
permitam que a violência me convença de que deixei de ser quem sou.
Porque a vida continua repetindo,
silenciosamente, aquilo que a alma demora tantos anos para acreditar:
Sinta.
Pense.
E, apesar de tudo, torne-se aquilo
que desde sempre você foi chamado a ser.
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