Entre a Liberdade e o Labirinto do Amor

Por Hiran de Melo

Há pessoas que confundem liberdade com distância.

Acreditam que basta partir para deixar de pertencer. Que mudar de cidade, de país, de braços ou de história seja suficiente para apagar aquilo que um dia habitou profundamente o coração.

Mas o amor desconhece a geografia.

Ele não consulta mapas. Não precisa de passaporte. Não respeita fronteiras nem calendários. Quando verdadeiro, instala-se num território onde nenhuma fuga alcança.

Talvez seja exatamente isso que a poesia "Tu Tudo Podes" nos recorda.

Ela começa oferecendo à amada aquilo que todos desejamos possuir: a liberdade.

"Menina, tu podes fugir..."

Que gesto curioso.

O eu lírico não prende. Não ameaça. Não implora permanência. Pelo contrário. Abre todas as portas. Permite todas as partidas.

Podes seguir pela terra.
Podes atravessar o mar.
Podes voar pelo ar.
Podes até atravessar o fogo.

Tudo te é permitido.

Mas então surge o paradoxo que transforma um simples poema de amor numa profunda reflexão sobre a condição humana.

É possível fugir dos braços.

É impossível fugir daquilo que os braços despertaram.

Há encontros que terminam no tempo.

Outros continuam acontecendo dentro de nós.

O amor verdadeiro possui essa estranha capacidade de sobreviver à ausência.

Não porque aprisione o outro.

Mas porque modifica quem ama.

Quem ama nunca volta a ser exatamente quem era antes.

É como uma árvore que floresce.

Mesmo quando o vento leva suas flores, permanece nela a memória da primavera.

Por isso o poema substitui a posse pela presença.

O eu lírico não diz que irá perseguir a mulher.

Diz apenas que habitará sua imaginação, seu coração, seus pensamentos.

Não como invasor.

Como lembrança.

Como perfume que permanece na roupa depois do abraço.

Como a música que continua sendo ouvida muito depois que o rádio foi desligado.

As flores e os beija-flores aparecem exatamente para revelar essa delicadeza.

O amor não se apresenta como corrente.

Apresenta-se como polinização.

Ele toca.

Transforma.

Vai embora.

Mas deixa vida onde passou.

É curioso perceber que a natureza jamais força uma flor a florescer.

Ela apenas cria as condições.

Assim também acontece com o amor.

Ele não obriga.

Convida.

Não exige.

Desperta.

Talvez seja por isso que o verso final cause tanto desconforto.

"Tudo podes... e nada podes além de mim."

Lido superficialmente, poderia parecer uma declaração de posse.

Mas talvez seja exatamente o contrário.

Talvez o "além de mim" não se refira ao homem.

Refira-se ao amor.

Porque, depois que amamos verdadeiramente, descobrimos que existe uma parte de nós que jamais poderá viver como se nada tivesse acontecido.

A liberdade permanece.

Mas nunca mais será a mesma liberdade.

Ela agora carrega memória.

E toda memória reorganiza nossos caminhos.

A vida inteira é assim.

Podemos mudar de profissão.

Podemos mudar de cidade.

Podemos mudar de religião.

Podemos até mudar de nome.

Mas continuamos habitando tudo aquilo que realmente nos transformou.

É por isso que o amor se parece tanto com um labirinto.

Não porque seja impossível sair dele.

Mas porque, ao encontrar a saída, descobrimos que já não somos a mesma pessoa que entrou.

O labirinto não existe para nos prender.

Existe para nos modificar.

Quem sai dele leva consigo um novo olhar.

E talvez essa seja a maior liberdade que existe.

Não a liberdade de nunca pertencer.

Mas a liberdade de reconhecer que algumas experiências nos pertencem para sempre.

Porque existem amores que acabam.

Existem histórias que terminam.

Existem despedidas inevitáveis.

Mas existem encontros que continuam vivendo silenciosamente dentro de nós, como um jardim invisível que floresce em todas as estações.

No fim, percebemos que o verdadeiro oposto da liberdade nunca foi o amor.

Foi o medo.

O amor apenas nos conduz por um labirinto onde cada curva revela uma nova versão de nós mesmos.

E quando finalmente encontramos a saída, compreendemos, com serenidade, que o destino daquele caminho nunca foi encontrar o outro.

Era encontrar a nós mesmos.

Assista:

https://www.youtube.com/watch?v=f4wfP18aH4o

ANEXO

Tu Tudo Podes

Hiran de Melo & Majda Hamad Pereira

Menina, tu podes fugir

Do meu abraço

Do meu laço

Fugir, podes fugir

 

Menina, tu podes partir

Pela terra, pelo mar

Pelo fogo, pelo ar

Partir, podes partir

 

(Coral 1)

Menina que tudo podes

Só não podes fugir, não

Do meu pensamento que habita

Na tu imaginação

 

Ele irá aonde tu fores

E nele estou

Como flores

A ti namorar

E em ti provocar

Infinitos ardores

 

(Coral 2)

Menina que tudo podes

Só não podes fugir, não

Do sentimento que habita

No teu coração

 

Ele irá aonde tu fores

E nele estou

Como beija-flores

A ti beijar

E em ti provocar

Infinitos ardores

 

(Coral, acelerando)

Assim, simplesmente assim

Que tudo podes

E nada podes

Além de mim.

Composição - 

Hiran de Melo & Majda Hamad Pereira & Boy

Intérpretes: Boy & Bielzin

Arranjos e Gravação: Studio Washington Boy

Faixa 01 do Álbum Sons da Terra & Gente – 2022

Publicado no blog: Álbuns – Letras de Músicas

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