A ausência como espelho da existência

Por Hiran de Melo

Há momentos em que não é a presença que nos revela quem somos. É a ausência.

Enquanto tudo permanece ao alcance das mãos, acreditamos que a vida se sustenta por si mesma. O outro está ali, o afeto nos acompanha, a rotina parece sólida, e imaginamos que o mundo possui um eixo permanente. Mas basta que alguém se retire — por escolha, pelo destino ou pela morte — para descobrirmos que aquilo que julgávamos ser o centro da existência era apenas o cenário onde nossa alma aprendia a respirar.

É curioso perceber que a ausência não cria o vazio. Ela apenas ilumina o vazio que já existia, mas permanecia invisível enquanto o amor o preenchia.

Quando alguém parte, não é apenas um lugar na casa que fica desocupado. Há um espaço silencioso que se abre dentro de nós. O relógio continua marcando as horas, os carros seguem cruzando as ruas, o sol insiste em nascer todas as manhãs. O universo não interrompe seu movimento para acompanhar a dor de ninguém.

É justamente essa indiferença do mundo que torna a ausência tão desconcertante.

A vida continua.

Nós é que, por algum tempo, deixamos de continuar.

Talvez por isso a canção O mundo sem você encontre uma linguagem tão poderosa ao repetir:

"Morri porque não sei viver longe de você."

Não se trata da morte do corpo. Trata-se da morte de uma forma de existir.

Existe uma diferença profunda entre deixar de viver e deixar de existir como antes. Há perdas que não nos matam biologicamente, mas encerram uma versão inteira de quem éramos. Morre o homem que fazia planos a dois. Morre a mulher que encontrava sentido em determinados gestos. Morrem os hábitos, os sonhos compartilhados, as pequenas certezas construídas em companhia.

Toda despedida contém um funeral invisível.

E, no entanto, ninguém vê.

Porque a dor mais profunda raramente produz ruídos. Ela apenas modifica o modo como olhamos para o mundo.

A ausência possui essa estranha capacidade de retirar o colorido das coisas sem alterar nenhuma de suas formas. A paisagem permanece a mesma; é o olhar que envelhece.

Por isso o sofrimento amoroso costuma ser tão incompreendido. Quem observa de fora enxerga apenas alguém que precisa "seguir em frente". Mas quem vive a perda sabe que seguir adiante não significa caminhar na mesma estrada. Significa aprender a existir em outro universo.

O amor tem essa natureza paradoxal.

Ele nos amplia enquanto permanece.

E nos revela enquanto desaparece.

Talvez seja por isso que a paixão possa transformar-se em prisão. Não porque o outro nos aprisione, mas porque passamos a confundir nossa identidade com sua presença. Quando isso acontece, a partida do outro parece levar consigo aquilo que imaginávamos ser nós mesmos.

É nesse ponto que nasce a ilusão de que o mundo acabou.

Mas o mundo nunca acaba.

Quem termina é uma narrativa.

Quem morre é um personagem.

Quem sofre é o ego incapaz de compreender que a existência sempre foi maior do que qualquer relacionamento.

O tempo, esse artesão silencioso, começa então sua obra mais delicada. Não elimina a saudade. Não apaga a memória. Apenas transforma a natureza da dor.

Aquilo que antes era ferida aberta torna-se cicatriz.

Depois torna-se lembrança.

Mais tarde converte-se em gratidão.

Até que um dia percebemos que a pessoa que partiu continua existindo, não mais ao nosso lado, mas dentro da arquitetura daquilo que nos tornamos.

Nenhum grande amor desaparece.

Ele apenas muda de endereço.

A ausência, então, deixa de ser um vazio e transforma-se em espelho.

É diante dela que descobrimos nossas dependências, nossos medos, nossas ilusões e, sobretudo, nossa extraordinária capacidade de renascer.

Porque toda perda nos faz uma pergunta inevitável:

Quem sou eu quando o outro já não está?

Responder a essa pergunta talvez seja uma das tarefas mais difíceis da existência. Mas também é uma das mais libertadoras.

No fim, compreendemos que a ausência nunca foi apenas sobre quem partiu.

Ela sempre foi sobre quem permaneceu.

E talvez seja exatamente por isso que ela se torne o mais fiel espelho da existência: porque, ao retirar de nós aquilo que julgávamos indispensável, devolve-nos a única companhia que nunca poderá partir.

Nós mesmos.

Vídeo

Assista, e talvez sinta com maior intensidade o que o texto tratou:

https://www.youtube.com/watch?v=LL51x5KBOCg

 


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