Eu, Você e a Espera
Por Hiran de Melo e Majda Hamad Pereira
(Um
chamado)
Seu
Menino, puxe com gosto este xote cheiro de paixão
Que
fará todo mundo sentir um aperto no coração.
(Refrão)
Chora
sanfona...
Lamenta
o que espera e não veio...
Chama
de volta, tudo o que vivemos
Que
aqui aguardo o tempo inteiro.
Toque
bem mansinho a sanfona sentida,
Que
eu danço sozinho a canção da partida.
O
chão de barro conhece o passo e compasso
De
quem busca abraço e só encontra descaso.
O
cheiro dela ficou no relento do meu lenço,
Mesmo
assim ainda mora no tempo suspenso.
E a
cada batida do triângulo e do pandeiro,
Ao
som da sanfona meu coração chora primeiro.
(Refrão)
Chora
sanfona...
Lamenta
o que espera e não veio...
Chama
de volta, tudo o que vivemos
Que
aqui aguardo o tempo inteiro
Vagueia,
minha ilusão, sanfoneiro,
Que a
noite seja de infinita paixão.
Puxe
a sanfona que ela chega perto de mim,
O
amor nunca se perdeu nesta estrada sem fim.
Canta
comigo essa dor que fala,
Que
arde safada, aperta e não cala.
Cante
este xote moído, tão cheio de ardor,
Que
dança entre as lágrimas e cheira a amor.
(Refrão)
Chora
sanfona...
Lamenta
o que espera e não veio...
Chama
de volta, tudo o que vivemos
Que
aqui aguardo o tempo inteiro
Composição – Hiran de Melo & Majda Hamad Pereira
Arranjos e Gravação: Studio Washington Boy
Álbum Lições do Cotidiano – 2024/2025
Faixa 10 - Intérprete – Andreza
Bocarely
Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=jtZPXpNhfGk
Faixa 11 – Instrumental – Maestro
Boy
https://www.youtube.com/watch?v=O7TUbluj_cU
ANEXO: Análise da letra da música
A Poética
da Espera como Resistência
Por Hiran
de Melo
A canção se ergue como um ritual de saudade,
onde o tempo não é linha reta, mas espiral de memórias que insistem em
permanecer. A sanfona, personagem viva, não apenas acompanha — ela chora,
lamenta, chama. E nesse chamado, o amor se revela não como presença, mas como
persistência.
A música como gesto de resistência
Desde o primeiro verso, há um convite à ação
sensível: “puxe com gosto este xote cheiro de paixão”. Não se trata de tocar —
trata-se de sentir. A música aqui é mais que som: é corpo que dança, é chão que
guarda, é lenço que cheira. Cada elemento carrega vestígios de um amor que não
se apagou, mesmo quando ausente.
O tempo suspenso e a espera como morada
A espera não é passiva. Ela é morada poética,
espaço onde o amor se recusa a morrer. O refrão — “Chora sanfona... Lamenta o
que espera e não veio...” — retorna como oração, como insistência. Esperar é
manter-se fiel ao que tocou profundamente. É resistir ao esquecimento com o
canto.
A dança solitária e o chão de barro
Dançar sozinho é gesto de quem não desiste. O
chão de barro, testemunha silenciosa, conhece o compasso de quem busca abraço e
encontra descaso. A solidão aqui não é derrota — é dignidade. É o corpo que
insiste em existir, mesmo quando o mundo se ausenta.
A memória sensorial como presença
O
cheiro no lenço, o som do pandeiro, a batida do triângulo — tudo vibra como
memória viva. A ausência se torna presença através dos sentidos. O tempo não
anda, mas pulsa. E nesse pulsar, o amor se mantém.
A dor que canta e cheira a amor
A dor
não se cala — ela canta. E ao cantar, transforma-se. “Canta comigo essa dor que
fala, que arde safada, aperta e não cala.” A dor aqui é linguagem, é gesto, é
resistência. É o modo mais humano de dizer: ainda amo, ainda espero, ainda sou.
Em sua essência, o poema é uma travessia entre
o que foi e o que ainda pulsa. É uma dança entre o barro e o céu, entre o
silêncio e o som, entre o que se perdeu e o que se recria. É, acima de tudo, um
canto que se recusa a esquecer.
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