Terra prometida

Por Hiran de Melo & Boy

 

Quero zelar

Quero ferir

 

Quero ficar

Quero partir

 

VOCAL

Tudo quero

Nada quero

 

Na terra prometida

Viver e morrer crucificado

 

Nada me foi dado

Tudo foi tomado

 

VOCAL

Inocente morrer, quimera

Para isso fazer, guerra

 

Sorriam Bons Dias

Chorem Messias

 

Tudo é recado

Nada é pecado

 

Profetas e profecias

Pastores e heresias

 

Tudo é recado

Nada é pecado

 

VOCAL

Razão, tudo é régua

Ilusão, tudo é névoa

 

Composição -  Hiran de Melo & Boy

Intérpretes: Boy & Bielzin

Arranjos e Gravação: Studio Washington Boy

Faixa 05 do Álbum Inteiro e Verdadeiro – 2023/2024

Vídeos: https://www.youtube.com/watch?v=YsffXcTnfRM

Faixa 06 do Álbum Inteiro e Verdadeiro – 2023/2024

Instrumental

https://www.youtube.com/watch?v=ajpRomHVfZc

 

Desejo, Ilusão e Redenção

Por Hiran de Melo

A canção “Terra Prometida” se constrói como um espelho fragmentado da alma humana — cada verso reflete uma tensão, uma contradição, uma busca. O poema não se contenta com respostas fáceis: ele mergulha no paradoxo, na ambiguidade, na dor que acompanha o desejo de transcendência.

Dualidade como essência

Logo nos primeiros versos, o eu lírico se revela dividido: “Quero zelar / Quero ferir”. Essa oposição não é apenas estilística — é existencial. O sujeito poético se reconhece múltiplo, instável, simultaneamente cuidadoso e destrutivo. A repetição de “Tudo quero / Nada quero” intensifica essa instabilidade, revelando uma fome de sentido que se confunde com o vazio.

A promessa que crucifica

A “terra prometida” não é um paraíso distante, mas um território de sacrifício. “Viver e morrer crucificado” desloca o imaginário religioso para o plano humano: a promessa exige renúncia, dor, entrega. O ideal se torna fardo, e o caminho para ele é feito de espinhos. A canção não celebra a chegada, mas expõe o preço da travessia.

Ironia e desencanto espiritual

“Sorriam Bons Dias / Chorem Messias” é um golpe de ironia que desnuda a superficialidade das relações e a hipocrisia das crenças. A canção confronta o discurso religioso com suas contradições: profetas e pastores coexistem com heresias e manipulações. “Tudo é recado / Nada é pecado” propõe uma ética fluida, onde o julgamento cede lugar à interpretação.

Entre régua e névoa

A razão é apresentada como régua — instrumento de medida, de controle. Mas a ilusão, como névoa, embaralha os contornos da realidade. O poema sugere que viver é oscilar entre esses dois polos: o desejo de compreender e a inevitável confusão que nos envolve.

A canção como rito de passagem

 “Terra Prometida” não é apenas uma composição — é um rito. Cada verso é uma etapa de iniciação, um convite à travessia interior. A linguagem, marcada por antíteses e repetições, constrói um ritmo que ecoa como mantra, conduzindo o ouvinte por um labirinto de significados.

No fim, não há chegada triunfante. Há apenas o reconhecimento de que a busca é o próprio caminho — e que, talvez, a terra prometida seja o lugar onde aceitamos nossas contradições como parte do sagrado que nos habita.

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