No nevoeiro
Por Hiran de Melo
Navegando no nevoeiro
Em vão destino eu vou
Navegando num veleiro
Em vão destino tu vais
Dia de branco
Muitos trabalhos e horrores
Muitas dores e dissabores
Dia de negro
Danças e Tambores
Muitos amores e ardores
Dia de glória para uns
Vanglorioso para outros
A roda do tempo tudo inverte
Vanglorioso para uns
Glória para outros
Tudo é névoa
Tudo é névoa
Não vos enganeis
A carne desprende dos ossos
As cinzas das velas
Lembram-nos que tudo é névoa
Navegando num veleiro
Em vão destino eu vou
Navegando no nevoeiro
Em vão destino tu vais
Composição -
Hiran de Melo & Boy
Intérpretes: Boy & Bielzin
Arranjos e Gravação: Studio Washington Boy
Faixa 09 do Álbum Sons da Terra & Gente – 2022
Vídeo
https://www.youtube.com/watch?v=XLu-CdmYY3U
No nevoeiro
Por
Hiran de Melo
O
poema “No Nevoeiro” se ergue como uma travessia simbólica entre luz e
sombra, vida e finitude. A imagem do nevoeiro — denso, indecifrável — traduz o
estado de incerteza que permeia a existência humana. Navegar nesse espaço é
aceitar o desconhecido, é seguir mesmo quando o horizonte se dissolve em bruma.
A
alternância entre o “dia de branco” e o “dia de negro” revela o ciclo
inevitável da vida: esperança e dor, criação e perda, glória e esquecimento.
Essa dualidade não é apenas contraste, mas movimento — o tempo gira, inverte,
transforma. A “roda do tempo” é o eixo que tudo reconfigura, lembrando que o
que hoje é glória pode amanhã ser cinza.
A
vela que se apaga, deixando apenas cinzas, é metáfora da fragilidade humana. A
carne que se desprende dos ossos, as cinzas que restam, tudo aponta para a
transitoriedade da matéria e para a urgência de viver plenamente antes que a
chama se extinga.
A
repetição dos versos finais — “Tudo é névoa” — funciona como um mantra
filosófico. É o reconhecimento de que nada é permanente, de que toda certeza se
dissolve. Ainda assim, o eu lírico continua a navegar, consciente da
efemeridade, mas movido por uma força interior que o impele a seguir.
Assim,
o poema se torna uma meditação sobre o tempo e o destino. Entre o branco e o
negro, entre o veleiro e o nevoeiro, o ser humano se descobre viajante de si
mesmo — buscando sentido em meio à névoa, celebrando o instante antes que ele
se desfaça.
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