Não há perdão

Hiran de Melo

 

Seguir pelo caminho sem luz

Fechar o coração ao que conduz

Saindo sem sorrir ou chorar

 

Não há como me perdoar

Por deixar a lua partir

E o sol não acordar

 

(Coral)

Não há cura, nem remédio

Nem alívio, nem intermédio

O despertar vai aquém do perdão

 

Barco sem âncora, mar adentro

A pedra da segurança sem lugar

Ao desejo do vento, as velas estão

 

Não há como te perdoar

Por deixar a lua partir

E o sol não acordar

 

(Coral)

Não há cura, nem remédio

Nem alívio, nem intermédio

O despertar vai aquém do perdão

 

Composição -  Hiran de Melo & Boy

Intérpretes: Boy & Bielzin

Arranjos e Gravação: Studio Washington Boy

Faixa 04 do Álbum Sons da Terra & Gente – 2022

Vídeo

https://www.youtube.com/watch?v=y47D_BP350w

 

Não há perdão – depoimento

Por Hiran de Melo

O poema se abre como um mergulho na escuridão da alma — um caminho sem luz, onde o eu lírico se confronta com a própria culpa e a impossibilidade de redenção. A ausência de perdão não é apenas um tema moral, mas uma metáfora existencial: o ser que perdeu o eixo, o sol e a lua, e agora navega sem âncora, entregue ao vento da própria consciência.

A travessia pela sombra

 “Seguir pelo caminho sem luz” é mais que uma imagem de desolação; é o retrato de quem se vê diante do abismo interior. O coração fechado simboliza o medo de sentir, o bloqueio da vulnerabilidade. O eu lírico não foge do sofrimento — ele o habita. A dor se torna território, e o silêncio, confissão.

O barco sem âncora

A metáfora do barco perdido no mar é o símbolo da existência sem direção. A “pedra da segurança sem lugar” revela o colapso das certezas, o desamparo diante da finitude. O vento, que antes movia, agora dispersa. O perdão, nesse contexto, não é possível porque o sujeito não encontra porto nem repouso.

A culpa como identidade

“Não há como me perdoar” — a repetição é um mantra de desespero. A culpa não é um episódio, mas uma condição. Ela molda o ser, apaga a luz, transforma o tempo em espera. O eu lírico não busca absolvição; busca compreender o peso de existir sem redenção.

A ausência de luz e o despertar

A lua que parte e o sol que não acorda são imagens da perda total — o fim do ciclo, o congelamento da esperança. O despertar “aquém do perdão” é o reconhecimento de que há dores que não se resolvem, apenas se integram. O poema não oferece cura, mas consciência.

Conclusão

“Não há perdão” é uma elegia à condição humana. O eu lírico, ao negar o perdão, revela o paradoxo da alma: desejar redenção e, ao mesmo tempo, saber que ela é inalcançável. É um canto de lucidez e desamparo, onde o amor e a culpa se confundem, e o silêncio se torna o único testemunho possível da dor.

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