Menina Feia

Por Hiran de Melo

 

Menina feia, lhe quero de volta

Não posso negar

Mas, é melhor

Que você não volte

E nós sabemos porquê.

 

Não vou esquecer meus sonhos

Porque neles todos você estar

Todavia, estou condenado a viver acordado.

 

(Vocal)

E acordado sonho não há.

 

Composição -  Hiran de Melo & Bielzin

Intérprete: 🎤 Bielzin (Gabriel Costa)

Arranjos e Gravação: Studio Washington Boy

Faixa 06 do Álbum Inverno no Cariri 2020

Publicado no blog: Álbuns – Letras de Músicas

Vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=NwH-Ws_EY84

https://www.youtube.com/watch?v=evFUiYHq44I

 

Menina Feia - depoimento

Por Hiran de Melo

“Menina Feia” nasceu de um lugar desconfortável — e talvez por isso tão verdadeiro. Não foi um poema que eu escrevi com tranquilidade. Foi mais uma espécie de enfrentamento interno, um diálogo silencioso entre aquilo que eu sentia e aquilo que eu sabia.

O verso inicial — “Menina feia, lhe quero de volta” — carrega uma contradição que, para mim, é o centro de tudo. Porque querer de volta não significa, necessariamente, desejar o retorno. Existe uma diferença sutil, mas decisiva, entre o impulso e a consciência. E esse poema mora exatamente nesse intervalo.

Quando digo “é melhor que você não volte”, não estou negando o sentimento. Estou reconhecendo o limite dele. Há amores que não são sustentáveis fora da memória. Eles funcionam melhor como lembrança do que como presença. E admitir isso exige uma espécie de maturidade dolorosa.

A “menina feia”, no fundo, nunca foi sobre aparência. Ela é uma construção afetiva. É aquilo que, aos olhos de fora, pode não fazer sentido — mas que, por dentro, tem uma força quase inexplicável. É o tipo de vínculo que a gente não consegue justificar, mas também não consegue apagar.

Os sonhos, nesse poema, são o último território onde esse amor ainda existe sem conflito. Lá, não há consequência, não há decisão, não há perda definitiva. Por isso o apego a eles. Mas quando digo que estou “condenado a viver acordado”, estou reconhecendo que não dá para habitar esse lugar para sempre. A realidade cobra presença. E presença exige escolha.

“E acordado sonho não há” talvez seja o verso mais duro que já escrevi. Porque ele não deixa espaço para fuga. Ele afirma, com uma simplicidade quase cruel, que a lucidez elimina a ilusão. E, sem ilusão, certas formas de amor deixam de existir como eram.

Esse poema não fala apenas de saudade. Ele fala de renúncia. De entender que nem tudo o que sentimos precisa — ou deve — ser vivido até o fim. Às vezes, preservar o que foi é mais honesto do que tentar reconstruir o que já não se sustenta.

Se eu pudesse resumir, diria que “Menina Feia” é sobre aceitar que há amores que permanecem — mas não retornam. E que crescer, em muitos casos, é aprender a conviver com essa permanência sem tentar transformá-la novamente em presença.

Porque nem todo amor foi feito para continuar.

Alguns foram feitos apenas para marcar.

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