Os
limites nos céus
Por Hiran de
Melo
I.
A madeira estar fumaçando
Prenúncio do fogo que vem
Aquecer, iluminar sem queimar
II.
A fogueira estar iluminando
Alegria no interior do trem
Cantar, dançar sem parar.
III.
A brasa estar aquecendo
Esperança amorosa do além
Orar, exaltar sem duvidar.
IV.
Que saudade de você, menina
Luz nos balões que me transporta
Calor que me aquece e transborda
Os limites dos céus nos olhos seus.
V.
Que vontade de você, menina
Beijo, abraço apertado, aberta a porta
Tudo que quero é você, nada importa
Os limites dos céus nos olhos meus.
Composição -
Hiran de Melo & Boy
Intérprete: 🎤 Boy
Arranjos e Gravação: Studio Washington Boy
Faixa 02 do Álbum Inverno no Cariri 2020
Vídeos:
https://www.youtube.com/watch?v=7nOapHqS-E4
https://www.youtube.com/watch?v=3pM2TABWilk
Os limites nos céus - depoimento
Por Hiran de Melo
Há, nesse poema, uma ascensão — mas não uma ascensão
pura. É um subir carregado de matéria, de fogo, de memória e de desejo. Como se
o céu não fosse um lugar distante, mas uma construção que começa na madeira que
fumaça.
Logo no primeiro movimento, o poema nos coloca
diante de um prenúncio: a madeira que ainda não é chama, mas já anuncia o fogo.
Esse estado intermediário é profundamente existencial. Não é o calor pleno, nem
o frio absoluto — é o “quase”. E é nesse “quase” que o ser humano habita a
maior parte do tempo. O fogo que “aquece, ilumina sem queimar” revela um anseio
por equilíbrio: queremos a intensidade da vida, mas tememos o seu excesso.
Queremos o amor, mas sem a dor que o acompanha.
No segundo movimento, o fogo já se manifesta como
fogueira — coletiva, festiva, quase ritualística. Há um deslocamento do íntimo
para o compartilhado. A alegria “no interior do trem” é uma imagem
interessante: o trem é movimento, passagem, destino que não se fixa. A alegria,
então, não é estática — ela acontece enquanto se vai. Cantar e dançar “sem
parar” não é apenas celebração; é também uma tentativa de suspender a
consciência do tempo. Enquanto se canta, não se perde.
Mas o poema não se contenta com a superfície da
festa. Ele desce — ou sobe — para a brasa. E aqui há uma transformação sutil e
profunda. A brasa não é o espetáculo do fogo, mas sua essência silenciosa. É o
calor que permanece quando as chamas já não são visíveis. E é justamente nesse
estado que surge a “esperança amorosa do além”. O amor, então, deixa de ser
apenas experiência sensorial e se torna transcendência. Orar, exaltar sem
duvidar — não como dogma, mas como entrega. A dúvida, nesse ponto, seria uma forma
de esfriar a brasa.
Quando o poema chega ao quarto movimento, ele revela
seu núcleo: a saudade. E a saudade, aqui, não é apenas falta — é uma forma de
presença expandida. A “menina” não está, mas ilumina. Os balões que transportam
são símbolos claros dessa espiritualidade do desejo: sobem, atravessam o céu,
escapam do controle humano. Assim como o sentimento. O amor, nesse ponto, já
não pertence ao mundo concreto — ele ultrapassa. “Os limites dos céus nos olhos
seus” é uma inversão poderosa: o infinito não está acima, mas dentro do olhar
do outro. O céu deixa de ser geografia e passa a ser experiência.
No quinto movimento, o poema assume sua dimensão
mais humana — e, paradoxalmente, mais universal. A vontade do corpo aparece:
beijo, abraço, porta aberta. Há um retorno ao concreto, ao toque, à presença
física. Mas esse retorno não nega o transcendente — ele o encarna. O desejo não
é oposto ao espiritual; ele é sua continuação. Querer alguém “e nada importa”
não é apenas paixão — é uma suspensão momentânea da ordem do mundo. O outro se
torna centro ontológico.
E então, o verso final ecoa como espelho do
anterior: “os limites dos céus nos olhos meus.” Há aqui uma fusão. Antes, o
infinito estava no olhar dela. Agora, está no olhar dele. Isso sugere uma
transformação interior: amar alguém não é apenas ver o infinito no outro, mas
tornar-se capaz de carregá-lo em si, mesmo na ausência.
No estilo espiritual existencialista que atravessa o
poema, o céu não é um destino após a vida — é uma metáfora daquilo que nos
excede enquanto estamos vivos. E os “limites” não são barreiras fixas, mas
fronteiras móveis, constantemente tensionadas pelo amor, pela saudade e pela
esperança.
No fundo, o poema propõe algo sutil e inquietante:
talvez o céu não tenha limites — mas nós temos. E amar é, justamente, a
tentativa de ultrapassá-los, ainda que por instantes, ainda que com o risco de
cair.
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