Na calçada
Por Hiran de Melo
Na calçada da casa em que
nasci
Era um pedaço do público
espaço
Que me pertencia como se
privado fosse
Sentado no batente as
pernas estirava
E as recolhia quando
alguém passava.
Sorrisos de contentamento
se espelhavam
E assim a calçada era
como tela de celular
Falava com o distante
como se próximo fosse
Sorria para o estranho
como amigo meu
Na calçada também se
paquerava
Troca de olhares que
tocava a alma
Acariciava, afetava e
muito prometia
Nada definido e por isso
mesmo encantava
Nas calçadas de outras
casas por onde andava
Vi a bela amada, sorri,
ela sorriu, me encantei
Olhei para trás, o olhar
dela encontrei
Uma emoção tamanha que
palavra faltava.
Na calçada eu a encontrei
Na calçada me apaixonei
Na calçada não mais me
achei.
Na calçada perdido,
sorrindo como bobo
Na calçada iludido,
agradecido como tolo
Por um instante fui
feliz, fui feliz.
Composição - Hiran de Melo & Boy
Intérprete: 🎤 Boy
Arranjos e Gravação:
Studio Washington Boy
Faixa 03 do Álbum Inverno
no Cariri
Publicado no blog: Álbuns
– Letras de Músicas
Vídeos:
https://www.youtube.com/watch?v=-uqD6G2cmME
https://www.youtube.com/watch?v=JcNaksFoXgU
Na calçada - depoimento
Por Hiran de Melo
Faço,
nesse poema, uma revelação silenciosa: a vida não acontece nos grandes
acontecimentos, mas nas bordas. E a calçada — esse espaço esquecido entre o
dentro e o fora — torna-se, aqui, o verdadeiro centro da existência.
Logo
no início, a calçada não é apenas um lugar físico; ela é um território de
pertencimento paradoxal. “Um pedaço do público espaço / Que me pertencia como
se privado fosse.” Há, nessa afirmação, uma tensão essencial: o humano precisa
se apropriar do mundo para existir, mesmo sabendo que nada lhe pertence de
fato. A infância, então, aparece como o único tempo em que essa contradição não
dói — quando o sujeito ainda pode chamar de “seu” aquilo que é de todos, sem
culpa, sem consciência da perda futura.
O
gesto de esticar e recolher as pernas quando alguém passa é profundamente
simbólico. Não é apenas educação ou hábito — é o primeiro aprendizado
existencial: o outro limita o meu espaço. A presença do outro nos define, nos
reduz, nos molda. E, ao mesmo tempo, nos constitui.
Na
sequência, a calçada se transforma em “tela de celular”. Aqui, o poema faz algo
raro: ele une tempos distintos sem conflito. O passado concreto e o presente
virtual se encontram. Mas o que está em jogo não é a tecnologia — é a
experiência da mediação. Falar com o distante como se fosse próximo, sorrir
para o estranho como amigo… isso revela que a proximidade nunca foi física.
Sempre foi construída por intenção, por abertura, por desejo de encontro. A
calçada já era, antes de qualquer tela, um espaço de conexão simbólica.
Quando
o poema entra no campo da paquera, ele toca um ponto delicado: o encanto do
indefinido. “Nada definido e por isso mesmo encantava.” Há aqui uma verdade
existencial profunda — o ser humano se apaixona mais pela possibilidade do que
pela realização. O olhar que promete sem cumprir mantém viva a chama do
imaginário. O amor, nesse estágio, não é relação — é projeção. E talvez seja
por isso que seja tão intenso.
O
encontro com a “bela amada” é quase místico. Não há diálogo, não há construção
narrativa — apenas o olhar. E o olhar, aqui, substitui a linguagem. Quando “a
palavra faltava”, não era incapacidade — era excesso. Há experiências que
ultrapassam o verbo. O silêncio, nesses momentos, não é vazio: é plenitude.
Mas o
poema não permanece nesse êxtase. Ele avança para a perda de si: “Na calçada
não mais me achei.” Este é o ponto de ruptura. O amor, que antes encantava,
agora dissolve a identidade. E isso não é tratado como tragédia absoluta — há
uma ambiguidade essencial. O eu lírico se reconhece “perdido”, “iludido”,
“tolo”… e, ainda assim, agradecido.
Esse
agradecimento é talvez o núcleo espiritual do poema.
Porque
ele revela uma compreensão rara: a felicidade não está na permanência, mas na
intensidade do instante. “Por um instante fui feliz, fui feliz.” A repetição
não reforça apenas a afirmação — ela tenta fixar o efêmero. Como se o sujeito
dissesse: não durou, mas existiu. E isso basta.
No
estilo espiritual existencialista que atravessa o texto, a calçada deixa de ser
um espaço urbano e se torna uma metáfora da condição humana. Estamos sempre
nela: entre o dentro e o fora, entre o que somos e o que podemos ser, entre o
encontro e a perda.
A
calçada é o lugar onde a vida passa — e onde, às vezes, nos encontramos… apenas
para, logo depois, nos perdermos de novo.
E
talvez seja justamente isso que o poema sugere, de forma sutil e inquietante:
não nos perdemos apesar dos encontros — nos perdemos por causa deles. Porque
todo encontro verdadeiro desloca quem éramos.
No
fundo, a calçada não é o cenário da vida.
Ela é
a própria travessia.
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