Cartinha de amor
Por Hiran
de Melo
Pensei em lhe escrever
uma cartinha
Simples que informasse o
essencial;
Pensei no vento frio que
banha o meu rosto
Mais que desejado, mais
que natural;
Pensei no seu beijo, no
desejo e no gosto
De tê-la nos meus braços
e senti-la minha.
(Coral)
Sonhei com você
Pensei em lhe vê
Nos meus braços, laços
Uma cartinha.
Pensei em lhe pedir em
casamento
Tão complexo que
amedronta;
Pensei em correr à
estação do trem
Tão trivial que encanta;
Pensei no caminho que lhe
faz bem
De vê-la ao meu lado, a
cada momento.
(Coral)
Sonhei com você
Pensei em lhe vê
Nos meus braços, laços
Uma cartinha.
Pensei em não mais
chorar, apenas sorrir
Anunciado por todos os
profetas;
Pensei na flor mais bela
do jardim
Desejada por todos os
poetas;
Pensei em lhe ter bem
junto de mim
De imaginá-la no meu
coração florir.
(Coral)
Sonhei com você
Pensei em lhe vê
Nos meus braços, laços
Uma cartinha.
Composição - Hiran de Melo & Boy
Interprete: 🎤 Boy
Arranjos e Gravação:
Studio Washington Boy
Faixa 08 do Álbum Inverno
no Cariri 2020
Publicado no blog: Álbuns
– Letras de Músicas
Vídeo:
https://www.youtube.com/watch?v=k_B6-8LooyE
https://www.youtube.com/watch?v=3_gcQ34klas
Cartinha de amor - depoimento
Por Hiran de Melo
Eu imaginei
essa Cartinha de amor como quem encontra um pedaço de si mesmo esquecido
dentro de uma gaveta antiga.
Há
algo profundamente revelador nesse gesto inicial — “pensei em lhe escrever uma
cartinha”. Não é apenas uma ação. É uma confissão de limite. O eu lírico não
escreve: ele pensa em escrever. E é nesse intervalo, entre o impulso e o ato,
que o poema inteiro se instala. Ali mora o amor que ainda não aconteceu, mas
que já ocupa tudo.
O que
mais me atravessa é essa insistência do “pensei”. Não há afirmação, não há
posse — há tentativa. Como se amar fosse um exercício de ensaio contínuo, nunca
uma obra concluída. O sujeito não vive o amor: ele o imagina, o projeta, o
ensaia dentro de si. E talvez por isso ele seja tão intenso — porque não foi
ainda contaminado pela realidade.
O
vento frio no rosto não é apenas cenário. É ausência que toca. É o mundo
dizendo: “ela não está aqui”. E, paradoxalmente, é isso que a torna mais
presente. Há uma lucidez quase dolorosa nisso: o amor cresce no espaço que
falta.
Quando
ele pensa no beijo, no gosto, no corpo nos braços, não vejo desejo carnal
apenas — vejo uma tentativa de fusão, quase uma vontade de deixar de ser um
para ser dois em unidade. Há um traço de pertencimento que beira o impossível,
como se amar fosse também querer abolir a própria solidão ontológica.
E
então vem o refrão — esse retorno insistente ao sonho. “Sonhei com você”. Não é
memória, é projeção. Não é lembrança, é criação. O amor aqui não nasce do
vivido, mas do imaginado. E isso o torna ao mesmo tempo mais puro e mais
perigoso. Porque tudo que é sonhado não encontra resistência — apenas eco.
O
poema cresce e ousa mais: casamento, futuro, permanência. Mas sempre sob a
sombra do pensamento, nunca da ação. Há um medo sutil, quase elegante, de
atravessar a fronteira entre o sentir e o fazer. Como se o real pudesse quebrar
a beleza do possível.
E
talvez o ponto mais honesto esteja no final: o desejo de não mais chorar, de
fazer florescer. Aqui, o amor deixa de ser apenas falta e passa a ser promessa
de transformação. Não da relação — mas de si mesmo. Amar, nesse poema, é uma
tentativa de reorganizar o próprio interior.
No
fundo, o que essa “cartinha” revela não é uma declaração para o outro. É um
depoimento involuntário sobre a própria condição de quem ama antes de viver o
amor.
E
isso é o que mais me inquieta: há amores que não existem no mundo — mas existem
com tanta força dentro de nós, que parecem mais reais do que qualquer presença.
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